Corpo sem alma
a fragilidade epistemológica e metodológica da proposta de Ensino Religioso na BNCC
Resumo
este artigo propõe uma análise crítica da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no que tange ao componente curricular do Ensino Religioso, à luz das fragilidades epistemológicas que a estrutura e os conteúdos propostos revelam. O objetivo principal é demonstrar como a ausência de um posicionamento teórico-metodológico claro por parte do documento compromete a qualidade formativa da disciplina, expondo alunos e professores a uma abordagem ora essencialista, ora excessivamente genérica, que não dá conta da complexidade do fenômeno religioso. A investigação se ancora numa perspectiva histórico-cultural, com ênfase nas contribuições de autores como Adone Agnolin (2019), Clifford Geertz (2019), Michel de Certeau (1998), Antônio Benatte (2014), Nicola Gasbarro (2006) e Raffaele Pettazzoni (2016). A análise parte da compreensão de que a religião é um fato histórico-cultural, constituído por práticas, representações, normas e símbolos que variam de acordo com os contextos sociais, políticos e territoriais nos quais se inserem. Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter analítico e bibliográfico, com ênfase na leitura crítica da BNCC e no cruzamento de suas formulações com a perspectiva apresentada. O corpus principal de análise é o texto da BNCC referente ao Ensino Religioso nos anos do Ensino Fundamental, especialmente os trechos que definem os objetivos, os conteúdos e as competências a serem desenvolvidas. Os resultados obtidos indicam que, embora a BNCC revele em alguns trechos uma preocupação em historicizar e culturalizar as religiões, sua redação permanece marcada por inconsistências conceituais e por generalizações. Observa-se, por exemplo, a insistência em apresentar as doutrinas religiosas como sistemas fechados e homogêneos, além de uma naturalização do conceito de divindade que ignora as religiões não teístas ou com estrutura simbólica distinta. Argumenta-se, ao fim, que mesmo uma reformulação da BNCC que assumisse integralmente a perspectiva histórico-cultural não seria suficiente para sanar os problemas do Ensino Religioso nas escolas públicas. Este artigo, portanto, não pretende esgotar o debate, mas contribuir para o esclarecimento de que qualquer proposta curricular no campo do Ensino Religioso precisa estar ancorada em bases teóricas consistentes e comprometida com os princípios da laicidade e pluralidade.
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